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domingo, 10 de agosto de 2014

Paulo Leminski - Toda Poesia

O pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau e pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhadaputa
de fazer chover
em nosso piquenique.

Conheci a obra do poeta curitibano Paulo Leminski (1944 - 1989) lá pelo fim dos anos 1980. Quem me apresentou foi o José Luiz Gomes (sempre ele), meu amigo de jornalismo e de produção de fanzines. Publicamos um apanhado de sua obra numa das edições do nosso zine.

Fez sucesso. Era uma época sem internet, sem Google, sem redes sociais. Tudo era feito na cara e na coragem. Hoje, em tempos digitais, para o bem ou para o mal, fico feliz em ver, aqui e ali, frases e poemas do faixa-preta da poesia brasileira.

Muito dessa redescoberta do Leminski deve-se ao lançamento, no ano passado, do livro “Toda Poesia”, da Companhia das Letras. A obra, de 422 páginas, traz toda a produção do escritor, impressa em seis livros, além de poemas esparsos.


Ao fazer brincadeira com o famoso bigodão do Leminski, na capa e nas peças publicitárias, a editora conseguiu colocar o poeta no topo da fama, desbancando nas livrarias os tais “Cinquenta Tons de Cinza” em número de vendas.

Nada mal para um autor que, como explica sua companheira Alice Ruiz na apresentação do livro, teve a paciência de iniciar a sua produção de forma independente, quase artesanal, esparramando fotografias e textos pelo tapete da sala.

Um poeta que já brincou com o próprio ofício, no livro 'Não fosse isso e era menos, não fosse tanto e era quase': “eu queria tanto ser um poeta maldito, a massa sofrendo, enquanto eu profundo medito / eu queria tanto ser um poeta social, rosto queimado pelo hálito das multidões / em vez, olha eu aqui, pondo sal nesta sopa rala, que mal vai dar para dois”. (Angelo Davanço)







Título: Toda Poesia
Autor: Paulo Leminski
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 421

A Velha Senhora

Naturalmente, não conheci a dona Theolina de Andrade, morta em 1954. Também chamada de Sinhá Junqueira, seu olhar hoje paira sereno, num grande quadro pendurado em uma das salas do casarão onde ela viveu, na rua Duque de Caxias.

Em seu testamento, a sinhá fez algo raro de acontecer nesta época em que vivemos - deixou expressa, e por escrito, a ordem para transformar o seu casarão em uma biblioteca de acesso público. E lá está, até hoje, a Biblioteca Altino Arantes. Um raro exemplo de preservação do patrimônio histórico, normalmente tão desprezado pela maioria.

Conheci a biblioteca ainda moleque. Como morava a poucas quadras de lá, não era raro usar suas pesadas enciclopédias para trabalhos escolares nos tempos do Dom Luiz do Amaral Mousinho.

Tardes e tardes debruçado sobre aquelas pesadas mesas de madeira, copiando textos para trabalhos de história, geografia, biologia, português.

Pois outro dia voltei à Biblioteca Altino Arantes. Mais do que isso, voltei ao meu passado. Lá estão as mesmas mesas, as mesmas cadeiras, basicamente os mesmos livros, o mesmo olhar da Sinhá Junqueira e o mesmo José Carlos Gomes. Há quase meio século trabalhando na biblioteca, Gomes começou como officeboy e hoje administra o prédio e o seu acervo com mais de 40 mil obras. Títulos que estão lá, dia sim, dia também, à disposição de quem queira se desligar do “maravilhoso mundo tecnológico”.

Neste meu retorno, saí de lá com um livrão de seiscentas páginas de Dom Quixote. Não terminei ainda, mas pretendo voltar mais vezes à Altino Arantes em 2014. Me aguarde, Sinhá. (Angelo Davanço)

A Epopeia de 32

Os dias passam e lá está ela, silenciosa: a Epopeia de 32. Eu a observo e, do alto do seu silêncio, ela observa tudo. Os meninos que chegam para ficar à toa, as donas de casa apressadas pelas ofertas no comércio, os primeiros copos do Pinguim, o ‘colega’ Pedro II. Mas um dia, quente como tantos outros, noto que ela está irritada. Os dias passam e lá está ela, alvo fixo de pombos, andorinhas e outros seres alados que habitam a praça XV de Novembro. Ela já não suporta mais. Nossa combatente resolve apelar. Lança contra as aves a sua granada, testemunha fiel de tanta humilhação.

A arma passa com um petardo pela Baixada e explode nas inocentes águas do ribeirão Preto. O contra-ataque é rápido e logo a Epopeia se vê toda enlameada.
- Então é guerra?!
- Olha lá, a Epopeia falou!
- Nossa, está descendo!


Não se registrou feridos, muito menos mortos. O certo é que muitos aproveitaram para sair da choperia sem pagar a conta, ainda confusos: - Essa bebida ainda acaba comigo! A Epopeia não via obstáculos à sua frente, mas não chegou a causar grandes estragos. Logo as equipes de tevê já estavam na praça: - Estamos ao vivo no local onde a Epopeia faz o seu protesto.

E lá foi a nossa heroína, rumo à fonte luminosa, dar um fim a tanta sujeira. Foi tudo muito rápido, apesar de seu corpo colossal. Na sua volta, muitos aplaudiram, outros tantos choraram. Ela subiu e continuou imponente. Retirou outra granada de seu arsenal, ficou em posição de combate e não deu mais atenção aos burburinhos à sua volta, como sempre. (Angelo Davanço)

terça-feira, 8 de julho de 2014

Vai e vem e volta... O Ribernauta

Sabe aquelas ideias que ficam martelando na cabeça? Idéias com acento, do tempo antes da reforma ortográfica? Todo mundo tem. Às vezes elas desaparecem mas, numa noite de insônia qualquer, pimba! Lá vem a ideia te martelar.

É mais ou menos assim este Ribernauta. Ele já existiu, já teve outros nomes, já teve outras propostas. Ele já foi e já voltou. E já foi e já voltou de novo. E aqui está novamente.

Desta vez sem grandes expectativas, afinal a roda já foi inventada faz tempo. Vou escrever, vou fotografar, vou postar. Se alguém quiser seguir junto, será um prazer. Não me interessa a quantidade das estatísticas, mas a qualidade de quem quiser perder alguns minutos por aqui. Vamos nessa? (Angelo Davanço)